sobre-viver

VIDA REPENTINA

ROSA DOS VENTOS

19.05.2012

Já faz quase 3 meses que publiquei o último post, OMG. Realmente o tempo passa rápido. Quando eu era pequena adorava uma ampulheta de areia azul. Virava e esperava o pó cair de novo e de novo… sempre gostei de fingir que podia controlar o tempo. O tempo suave e macio. Nem imagino aonde esta ampulheta foi parar. Muito menos imagino como estou onde estou agora. 5 da manhã e sinto MUITA vontade de escrever qualquer coisa, só pra ver se consigo prender este fim de noite no papel. Fixar um pouco de mim antes de ir dormir por algumas horas. Tanta coisa aconteceu nestes 3 meses sem postar no blog. Já sabia que não conseguiria cumprir a promessa de escrever todos os dias desde 01.01.2012. Mas aceito que não tenho tempo nem disciplina pra tal promessa que fiz a mim mesma. Não irei me castigar pelo fato deste post estar tão atrasado, afinal, não vem ao caso citar todos os motivos que me fizeram ficar em silêncio tantos dias, semanas e meses. Não tenho prazos a cumprir pois este blog é uma sequência de páginas brancas preenchidas com esperanças e nada muito além de buscar preencher o vazio da página, de mim, dos dias e horas. Mas o que aprendi nesses 3 meses? Muitas coisas. Algumas podem ser descritas, outras não. Vou tentar enumerar algumas: 1. A vida sempre surpreende. 2. As pessoas podem ser o que elas quiserem – boas ou más. 3. Própolis é amargo mas se adicionar leite fica mais gostosinho e ajuda a curar a gripe. 4. Ficar menos tempo em páginas como facebook ou twitter faz muuuuuito bem pra pele. 5. Um amor sempre pode voltar. 6. Me sinto muito bem quando posso ajudar alguém e vice-versa. 6. Me sinto mal quando sei que errei e não, não se pode voltar no tempo. 7. Os erros ensinam, definitivamente. 8. A vida é preciosa demais. 9. Pilates é incrível para o corpo, análise para a mente. 10. Paciência é tudo nessa vida. 11. Ficar mais velha é preferir ver filminho em casa em vez de sair pra beber. 12. Sou um bicho. Depois dos 30 bate uma vontade enorme de ter filho.

Pode parecer bobo, mas gosto de andar pelas ruas e tentar adivinhar os pensamentos alheios. As histórias de cada um. Como pode ter tanta gente no mundo e nos relacionarmos com apenas alguns seres por aí? Minha utopia é que as pessoas pudessem ser mais próximas e amigas independente de interesses superficiais. Gostaria muito de ler boas notícias nos jornais. Gostaria de ter escudos invisíveis que evitassem comentários idiotas aos meus ouvidos e atitudes medíocres não machucassem meus olhos. Que janelas fechadas e prédios cinzas não tapassem a luz do sol.  Que a violência não tomasse tanto tempo e energia da Terra.

Conforme fico mais velha sinto mais pena do mundo. E dói, como dói saber que nosso tempo é tão curto. E pouco fazemos pra mudar a estupidez que orbita as divergências de ideias e desejos. Materialismo extremo, vidas desperdiçadas, pessoas escravas da dieta sedenta por capitalismo. A escassez de amor sutil, interesse e respeito pelas pessoas, pelos animais, pela natureza. Gostaria de derramar lágrimas por coisas que valessem mais a pena do que a dúvida sobre o futuro e expectativas de aceitação e reconhecimento. Meu esforço poderia ser aplicado a causas mais nobres como impedir desmatamentos, salvar crianças famintas, pessoas morrendo de frio. Me sinto culpada pelas minhas inúteis angústias quanto ao meu desempenho no dia a dia, tentar agradar quem não faz questão, pensar se devo pintar o cabelo e de que cor, se devo ou não comprar uma roupa x.  E nisso se passam semanas, 3 meses. Nada é em vão. E TANTO aprendi com a minha própria burrice! E tanto aprendi com a burrice dos outros! Que bom. Mas eu quero mais. Porque nasci assim, coraçãozinho selvagem e inconformista. Não me basta sonhar em possuir coisas. Quero sentir a verdade, buscar a simplicidade. Compreender as atitudes das pessoas ao meu redor, questionar, perdoar, não odiar. Esquecer, lembrar.

Todos os dias acordo, abro a janela, agradeço por mais um dia. A partir do momento que entendi que a ampulheta do tempo não para mesmo se eu não quiser, e que cada dia vale mais do que mil barras de ouro ou diamantes reais, tento aproveitar e sonhar de dia, sonhar de noite, mas não apenas sonhar com coisas impossíveis e sim com o que está ao meu alcance. Hoje na fila do refeitório tinha uma rosa atrás do vidro no jardim do prédio. E o vento quase arrancava ela do chão de terra. Mas firme em suas raízes ela aguentava o balanço, e dançava. Pensei: que bonito movimento este, de querer voar e não poder, querer se manter firme enquanto forças externas tentam te derrubar… e assim fui viajando na flor até chegar minha vez de pegar meu prato de comida e saborear o alimento enquanto meus órgãos internos trabalhavam para me manter viva. Para completar a alegria, sobremesa gostosa anti-tpm pré-café forte :) hmmmmmm

Mais um dia se passou. Não tive muita estória pra contar. Já deveria ter ido descansar depois do longo e intenso dia de trabalho. Mas algo me faz ficar aqui sentada escrevendo iluminada pela noite vinda da janela. Agora chegou a hora de fechar os olhos e sonhar com o amanhã que, se tudo der certo e a natureza de mim cuidar, virá clarinho com o carinho do sol.

Boa noite planeta querido.

DREAM OF LIFE

aparência
 a.pa.rên.cia
 sf (lat apparentia) 1 Aspecto exterior de alguma coisa. 2 Ficção, mostra enganosa. 3 Probabilidade, verossimilhança. 4 Forma, figura. 5 Vestígio que deixou de si alguma coisa. 6 Ilusão. 7 Capa, cor, disfarce. 8 O que se aproxima da realidade.

Algumas vezes me pergunto o que significa julgar as coisas e pessoas pela aparência, pela superficialidade. E como conseguimos nos acostumar com tudo. O céu está longe mas existe, o ar é invisível aos olhos mas é essencial à nossa sobrevivência, o mar acalma a multidão, o dinheiro alimenta, mas também tortura. Existe o que pensamos ser bonito e o feio, o atraente e o repulsivo. Estética, gosto e desgosto. Vivemos entre a moral e o desejo, o sonho e a realidade. Somos escravos do que pensamos sobre nós mesmos e do que conseguimos enxergar ou mesmo compreender ao redor. Quanto maior a sabedoria, maior a paz, tolerância, dignidade, liberdade.

Me pergunto como as sociedades ainda giram em torno da conformidade e convenções, regidas pelos deuses nos quais acreditam, sejam eles anjos, marcas ou famosos. Os padrões são como tijolos que formam os muros, quase todos tão antigos e desgastados que tornam-se invisíveis, inquestionáveis, banais e solitários – mas não mais solitários que os seres que cercam.

Idealizamos nossas necessidades e importância diante de todos através do egoísmo, materialismo, do mundo das aparências. Muitas vezes somos como pedaços procurando o todo nos lugares errados enquanto ignoramos o coração, as pessoas ao nosso lado, o momento presente, os pequenos atos. Tantos querem ser heróis, bem-sucedidos, ricos e famosos, mas raramente se mexem para ser pessoas educadas, simpáticas e amorosas. E assim guerras internas e externas tomam conta do mundo. Ansiedade, inveja e raiva se acumulam graças aos conceitos estabelecidos pelos seres humanos e suas regras e sistemas falidos, ultrapassados, gananciosos, mentirosos.

O que é fantasiar? Devaneio. Fuga. Cada um precisa buscar um pouco de alívio diante da opressão, da dificuldade de respirar. Pensamos ser livres, mas não somos. E a culpa não é só dos outros, é principalmente nossa, quando perpetuamos a mania de julgar e competir no pior sentido. Tudo começa de dentro, do que decidimos gostar ou não, aceitar ou não. Não quero que todos pensem igual, mas seria ótimo se pudéssemos abrir mais os olhos e subir numa escadinha para poder enxergar além dos tijolos de nossa própria mente, além do muro que centenas de anos de machismo, abuso e disputa de poder e verdade consolidaram em torno de nós.

Se a ilusão tem alguma vantagem talvez seja a de nos permitir imaginar a possibilidade de habitarmos um mundo mais coerente, macio e alegre. E isso depende de nós, de como nos posicionamos e amamos os outros, de como educamos as crianças, de como agimos hoje. Um futuro melhor e um mundo mais justo só pode se manifestar se realmente acreditarmos que podemos mudar a nós mesmos primeiro, aprendendo a viver além do infantil e ignorante “gosto”, “não gosto”, ir além do “eu, eu, eu” que só nos faz sentir cada vez mais e mais sozinhos, enfraquecidos e presos.

curta a vida porque a vida é curta

Faz tempo que não escrevo, mas sei que será um textinho curto, porque o tempo que tenho hoje é curto. Preciso dormir. Minha cama me chama. O relógio engana enquanto o café que tomei horas atrás disfarça o sono e meu coração começa a esquecer mais um dia. Mas hoje precisava escrever um pouco, despejar qualquer coisa na folha branca pra esvaziar a cabeça. Os pensamentos causam mini tempestades internas, uma após a outra, é preciso livrar-se deles de vez em quando. Uma conta atrasada, um telefonema que não chega, a fome de alguma coisa deliciosa que não tenho na geladeira… Pensamentos logo viram sentimentos.

Aquele vaziozinho de fim de noite vem com o vento quando abro a janela e respiro o ar silencioso da noite e sonho com alguém que não existe. Escrevo ouvindo Backyard Babies, pra deixar penetrar um pouquinho de rock nas artérias e me lembrar de quem sou. Tenho ouvido muito Rap ultimamente e isso faz com que eu me sinta uma outra pessoa, talvez mais forte até, ou mais alegre, porque não me lembra nenhum ex-namorado ou felicidade nostálgica. O rap é meu, não me lembra ninguém nem nada relacionado ao passado. E como é bom… claro que o rock sempre faz me sentir em casa, é  o meu cantinho conhecido de proteção. É pra onde vou quando preciso me libertar. Mas sempre tem aquele som que lembra de tempos nada tranquilos quando o que mais quero é esquecer o passado.

O presente é valioso porque escorre da mão, é impossível de possuir cada minuto. O tempo corre como se fosse um cachorro fugindo da coleira. Você tenta agradá-lo, aproveitá-lo, mas lá vai ele livre, correr abanando o rabinho. E aí, quando você chega perto pra acariciar, já foi, sumiu. O que mais me incomoda do passado não é o que de fato aconteceu em todos esses anos, mas a dificuldade em aceitar que o presente vira passado em tão pouco tempo. E leva pessoas e coisas da gente. Por isso gosto de ouvir um disco novo. É como desvendar um outro mundo, abrir caminhos, construir memórias que ainda são incertas, fora de controle. Mas confesso que aquela dorzinha de ouvir um som antigo, daqueles que lembram uma fase boa é gostoso demais também. É tipo dor de tatuagem, dura algumas horas, sangra, mas depois vira um desenho, gravado pra sempre… vira história, memória. “Things to do before we die”. Esse é o som do B. Babies que começa a tocar exatamente agora! Coincidência ou não, a letra é incrível. “There was a time when I was young and blind / 
Could not see ’cause of my one tracked mind / 
There was a time when I was betting high / 
Too many things to do before we die…”

Muito pra se fazer antes de morrer… Sinto isso o tempo todo. Como uma bomba prestes a explodir. Mas o que é viver senão acordar, dormir e sobreviver um dia após o outro? Por que desejamos tanto que algo extraordinário aconteça? Tenho muitos sonhos mas me esforço pra manter o foco na realidade, entender que não há muito o que esperar. Não quero parecer desanimada ou deprimida, porque a cada dia cultivo a consciência de saber que estou viva, e que devo aproveitar e oferecer meu melhor pro mundo, e isso me faz feliz. Tomar banho e sentir a água no corpo, agradecer pelos alimentos, pela música, etc. etc. Por ter pernas pra andar, braços pra abraçar, boca pra beijar, olhos para enxergar. Não preciso de muito mais que isso, minha cama, minha casa, meus amigos, a paz. Tudo que preciso é a consciência de poder valorizar o que tenho. A consciência é preciosa, me leva pra onde quero estar: no presente, no agora.

Boa noite!

“you will sleep forever / you will never sleep again” (Fugazi)

 

 

como as penas de pavão colorem o mundo / how the peacock feathers color the world

O que pode ser mais devastador? Sentir raiva, medo ou inveja?

As emoções negativas banham as células de desrespeito, poluem a positividade, entopem o coração.

Mas por que é tão difícil controlar estes sentimentos que surgem às vezes como explosões involuntárias de nossa própria mente destreinada? Talvez da mesma forma que o ser humano continua consumindo cigarro sabendo que é um tipo de suicídio pago com dinheiro e vida. O prazer de fumar talvez seja o mesmo daquele que impregna fofocas depreciativas, venenosas. Venenosas mesmo. Enquanto você se delicia como um vampiro ao falar do sangue do outro, quem se prejudica é você, ou seu pulmão, porque o ar que circula na mente negativa é cinza, pesado e contamina a qualidade de sua própria vida e de quem convive com você. Não quero ser moralista, mas é muito bem-vindo o mínimo de autocontrole na vida diária, nem que sejam poucos goles por dia, para hidratar a paz interna e externa. Capricorniana com ascendente em touro que ama punk rock, sinto na pele a dificuldade de lidar com a paciência. Mas juro que tento.

autocontrole
 au.to.con.tro.le
(trô) sm (auto4+controle) Controle de si mesmo; domínio dos seus próprios impulsos, emoções e paixões

Autocontrole é a chave dourada da felicidade, relaxante mecanismo de defesa refinado. A maior dificuldade em enfrentar as emoções negativas é a necessidade de aceitá-las como naturais, porém manipuláveis. Temos a capacidade de lidar com as emoções de modo mais inteligente. Assim como não comemos pizza todo dia porque, embora seja gostosinho, engorda e prejudica a saúde, deveríamos também cuidar dos nossos pensamentos e nos preocupar com nossa mente como nos preocupamos com nossos cabelos. Imagine-se como um pavão.

No budismo tibetano, o pavão simboliza a transformação do negativo em positivo. Dizem que o pavão se alimenta de plantas venenosas, transformando as toxinas nas cores radiantes de suas penas sem se envenenar. Que tal aprender com nosso amigo pavão e então, quando surgir aquele ódio instantâneo, basta se lembrar do desenho animado: “supergêmeos, ativar: forma de um pavão! (ou pavoa)”

pavão 
pa.vão
sm (lat pavone) Ornit 1 Grande ave da família dos Fasianídeos (Pavo cristatus vulgaris) que se distingue por sua cauda e bela plumagem. 2 Indivíduo muito vaidoso.

vaidade
 vai.da.de
sf (lat vanitate) 1 Qualidade do que é vão, instável ou de pouca duração. 2 Desejo imoderado e infundado de merecer a admiração dos outros. 3 Vanglória, ostentação. 4 Presunção malfundada de si, do próprio mérito; fatuidade, ostentação. 5 Coisa vã, fútil, sem sentido. 6 Futilidade.

Pavão é um bichinho vaidoso. Nós também, e como. O planeta que o diga. Claro que a vaidade tem suas vantagens, afinal, quase todos nós lutamos diariamente pela nossa felicidade, bem-estar e prazer e isto não está errado, até certo ponto. Gostar de si próprio, se amar e se auto valorizar são “vaidades” necessárias, e sim, básicas para a dura guerra contra a negatividade. Só o amor por nós mesmos e pelo que nos cerca é que pode gerar o poder da transformação do negativo em positivo. Supergêmeos ativar! Só considerando o outro como seu próprio irmão-gêmeo, que divide o mesmo teto-céu pisando em terra firme, é que podemos enxergar nossos limites, direitos e deveres. Só se alimentando da dor do outro é que não passaremos fome. Com-paixão. É muito difícil mergulhar no espelho profundo do mundo e se ver refletido nos outros. Dar às mãos para a angústia coletiva, desejar e comemorar a alegria e vitória alheia. Haja esforço, e afinal, quem se importa? E pra que ser positivo, alguns devem se perguntar… ué, você não quer ser feliz?? Então…

Não importa que quase ninguém se importa. A vantagem de tentar compreender o que levou outra pessoa a te agredir com palavras ou atitudes estúpidas é que você passa a entender o outro como se você fosse a mãe ou pai de uma criança desequilibrada e indefesa. Uma pessoa que agride o tempo todo só pode estar muito assustada e insegura com ela mesma, talvez até desesperada e perdida. E quem se importa com ela? Este é o problema, ou a solução. Quem não se importa deveria começar a se importar – consigo, com o outro… e se não for pela sua saúde que seja pela da nossa casa-Terra.

Toda vez que alguém te desrespeitar, pense que essa pessoa está lançando um bumerangue de ódio contra ela mesma, e que jamais vai te atingir de fato. Desvie, sem devolver a agressão. É difícil, mas com o tempo você percebe que não vale a pena dar atenção às fraquezas do outro, à ignorância de uma atitude babaca ou violenta. Falo por experiência própria. Já fiz muitas besteiras, já fiz a justiceira, já fiz barraco e aprendi que definitivamente não vale a pena! Me arrependo de muitos erros, mas é com eles que aprendi. Posso dizer:

A melhor coisa a fazer quando alguém te faz mal e desperta faíscas de ódio é realmente não deixar o fogo se alastrar. Como um belo pavão, abra suas penas –  ou escudos – dê meia volta e saia andando, arrastando sua brilhante cauda, fina e feliz como a mais elegante das espécies, e voe leve. Deixe o outro literalmente falando sozinho, brigando com ele mesmo, sem consciência de seu próprio veneno. Abra seus olhos, suas asas e tente se libertar das emoções negativas. Agora!!

: )

medo de fantasmas / fear of ghosts

Não gosto de sentir medo. Machuca, incomoda, aperta o estômago, esvazia o coração.

Medo faz chorar lágrimas assustadas, levemente desesperadas, desesperançadas. Até gosto do choro silencioso, suave, solitário, às vezes. Mas não do medo.

Choro e rezo para o vazio. Peço força, coragem e que me guie para direções certas, aos caminhos que levem às flores e cores, longe das dores. Peço que me desvie da bolha acinzentada e nula que o medo forma e aprisiona. Nesta caverna não quero entrar. Neste buraco não caio mais.

Mas sei que o medo está lá, em algum lugar, me observando. Tantas vezes nossos olhares se cruzam arregalados enquanto minhas sobrancelhas franzem como se eu voltasse a ter 13 anos, com toda uma vida pela frente. Se pudesse retornar aos 18, faria muitas coisas de outro jeito. Mas o passado já não me assombra. O futuro é que me ameaça, me amedontra.

Temo fazer escolhas erradas, me enganar, perder mais tempo. Estamos aqui para aprender, a vida não passa de uma escola, mas e daí? Quem vai dizer se aprendi ou não? Se passei de ano ou não? Temo a morte, a falta de boa sorte, de não ter tempo suficiente para aprender, ou apenas corrigir os mesmos erros de sempre. Temo nunca saber as respostas que tanto procuro, sonho e desejo. Queria saber toda a verdade, como num filme, com começo, meio e fim. Talvez perderia a graça dos mistérios, mas como é ruim também não ter certeza de nada. Estudar sem nunca se formar ou ter alguém que realmente se importe com isso.

Aos 33 anos me sinto como se estivesse saindo do terceiro colegial, com vontade de aprender coisas novas, me sinto pronta para uma outra fase. Como se tivesse chegado na metade de uma estrada, cheia de expectativas. Porque agora enxergo muito mais, embora o caminho seja ainda cheio de obstáculos, barreiras e penhascos. É preciso muito mais cuidado, porque agora já sei o que faço. Sei que posso plantar coisas boas se quero colher frutos positivos. Bem simples. Não tem mais tanto segredo. Mas continua algo no ar. O que será que vem depois? Qual deve ser o próximo passo? Ir para à direita ou esquerda? Só sei que devo seguir em frente, jamais pra trás. E, se errar, devo tentar consertar. Se cair, sei levantar. Tenho medo de parar de sonhar, desistir de buscar. Porque já nem sei se realmente há tanto o que se esperar. O mais claro quando se vive um pouco é que não há tantas opções. Amanhã não será melhor. O que muda é nossa percepção. Tudo fica em minhas mãos, ou quase tudo. Se quero enxergar o hoje mais bonito, mais vivo, sou eu quem decido. Não posso colocar isso nas costas de ninguém, muito menos no amanhã.

Quando era criança esperava ver chuvas de ouro e prata, o cometa Halley passar, estrelas cadentes que realizam desejos, conhecer estrelas da tv e eu mesma ser um dia uma estrela, do rock. Alguns anos depois, vejo que tudo que aprendi foi através de pequenos acontecimentos, com meus próprios erros e desilusões, mais até do que pelos sucessos. Nada de muito especial de fato aconteceu. Felicidades vêm e vão, são especiais mas ficam para trás. Até vir outra. O que é especial? Viver amor sem rancor, acordar com saúde, viajar, ter amigos, dormir e despertar.

A consciência é minha melhor amiga e maior inimiga. Como pode? Ela me avisa dos perigos, me mantém alerta, esperta. Me boicota, me xinga, me acorda. Só ela pode me valorizar, julgar, reconhecer, identificar. Só ela pode enxergar diamantes e brilhos que cegariam meus olhos. Só ela pode me tirar da escuridão, da emoção. A consciência está o tempo todo comigo, é a verdadeira companheira que não enxergo, mas sinto e me deixo levar. Transparente como os átomos, sua preciosidade ilumina devagar e escondida, mostra o caminho, mostra que eu existo. Me faz ter medo e não ter. É preciso prestar atenção nela e alimentá-la e cuidá-la antes que se esconda nos cantinhos do mundo ou se afogue em lágrimas de álcool.

Queria mesmo era colocar todo o medo que sinto numa garrafa de vidro e jogá-la no mar. Escrever frases repetidas num pedaço de papel, como numa carta ao professor desconhecido nos exercícios de escola. Repetir as frases “Não vou ter medo. Não tenho medo.” no mínimo 10 vezes.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

Não vou ter medo. Não tenho medo.

A garrafa então se afundaria, atravessaria os oceanos até alcançar outra garota medrosa/corajosa que queira se libertar. Ela leria o papel e teria certeza de que fora escrito pra ela, e então se sentiria realizada e escolhida, especial. Ou a pobre garrafa seria dilacerada por tubarões e os monstros aprisionados no vidro vazariam pelo mar, se enroscariam em polvos e lutariam com outras criaturas em alto-mar agitando as águas até desaparecerem como fantasmas. Como fantasmas da mente. Então eu caminharia alguns quilos mais leve sob o pôr do sol queimando minha pele na areia fofa, sorrindo pra ninguém, eu e minha consciência leve, prosseguindo para algum novo momento, sem medo de ser feliz.

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